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Pessoas Dois-Espíritos

Nas tribos nativas da América do Norte, pessoas “dois-espíritos” eram do sexo masculino, feminino, ou intersexo, cujas expressões ou identidades de gênero fluíam como bigêneros, andróginos ou transgêneros que combinaram personalidade e atividades de homens e mulheres com características únicas à sua condição de “dois-espíritos”. Na maioria das tribos, homens e mulheres dois-espíritos foram referidos com o mesmo termo, considerados um terceiro ou até quarto gênero. Várias denominações são encontradas, como “winkte”, nos Lakota, “Lhamana”, nos Zuni, “Nádleehí”, nos Navajo, “Agwoke”, entre os Anashinaabe, entre tantos outros. Termos como berdache e catamita, introduzidos pelos colonizadores, foram considerados pejorativos e caíram em desuso com o tempo.

Embora tenha havido variações importantes nos papéis de Dois-espíritos em toda América do Norte, eles compartilham um alguns traços comuns:

Papéis de trabalho especializados: Macho e fêmea dois-espíritos eram tipicamente descritos em termos de sua preferência para e realizações no trabalho do sexo “oposto”, ou em atividades específicas para o seu papel. Dois-espíritos eram especialistas em artes tradicionais, tais como a cerâmica, cestaria, e ao fabrico e decoração de artigos feitos de couro. Entre os Navajo, dois-espíritos masculinos muitas vezes tornavam-se tecelões, geralmente considerado um trabalho de mulheres, como exemplo, We’Wha, do povo Zuni. Outros eram curandeiros, que era um papel muitas vezes masculino. Ao combinar essas atividades, eles foram, na maioria dos casos, considerados os membros mais preciosos dentro de uma tribo. Os Dois-Espíritos femininos poderiam estar envolvidos em atividades como a caça e a guerra, e tornaram-se líderes em guerra e até mesmo chefes, como no caso de Lozen,dos Apaches, uma curandeira, mas também reconhecida como exímio guerreiro no campo de batalha, bem como Kuilix (Mary Quille), do povo Kalispel.

Variação de gênero: Uma variedade de outros traços distinguia os dois-espíritos dos homens e das mulheres, incluindo temperamento, vestido, estilo de vida, e os papéis sociais.

Sanção espiritual: A identidade de dois-espíritos foi amplamente considerada como sendo o resultado de uma intervenção sobrenatural na forma de visões ou sonhos e sancionado pela mitologia tribal. Em muitas tribos, os Dois-Espíritos ocupavam papéis religiosos especiais, como curandeiros, xamãs e líderes cerimoniais.

Relações do mesmo sexo: Dois-espíritos tipicamente formavam relações sexuais e emocionais com membros não-dois-espíritos de seu próprio sexo. Macho e fêmea dois-espíritos eram, muitas vezes sexualmente ativos, formando a curto e longo prazo relacionamentos. Entre os Lakota, Mohave, Crow, Cheyenne, e outros, acreditava-se que um dois-espíritos tinha sorte no amor, e era, assim, capaz de dar esta sorte aos outros.

Hoje, o termo “dois-espíritos” tem sido adotado por pessoas nativas da América do Norte desde o início de 1990 como uma alternativa aos rótulos ocidentais, como “homossexual”, “gay” e “transexual”, mas também assume uma amplitude maior, englobando as necessidades do reconhecimento LGBT entre as tribos nativas norte-americanas. Essa amplitude do termo distanciou um pouco a realidade do que vem a ser uma pessoa Dois-Espíritos nos dias de hoje.

Embora os próprios nativos norte-americanos desgostem de que a palavra “dois-espíritos” seja utilizada por qualquer outro povo, ou pessoa, como eles mesmos alegam, não se pode negar o fato de que pessoas com dois-espíritos num mesmo corpo existiram em várias partes do planeta, com seus nomes de acordo com a sua língua e cultura.

Igualmente nessas culturas, pessoas dois-espíritos foram desclassificadas de suas posições ao longo do tempo, principalmente devido à colonização e a homotransfobia introduzida em seus contextos com esse evento e com a aculturação dos nativos desses locais para encaixarem-se no novo sistema binário e heteronormativo que chegava com a colonização de suas terras.

No Peru temos os “quariwarmis”, que eram xamãs poderosos por terem dentro de si as duas energias que equilibram o universo, o masculino e o feminino. Infelizmente, a introdução de valores religiosos vindos da Cristandade sobrepujou essa identidade e as escondeu sob o manto do machismo. As Hijras, na Índia, já ocuparam posições de destaques, porém hoje sofrem em sua condição tendo sido degradadas. Na Grécia antiga, temos inúmeras lendas de seres transgêneros e diz-se também que a primeira versão da criação do ser humano, na Bíblia, teria sido Deus, um ser transgênero e por isso teria criado o homem e a mulher. Nas terras polinésias temos os Mahu, enfim, eles estiveram e estão em todos os lugares.

Por fim, o fato é que ao redor do mundo até os dias de hoje, pessoas dois-espíritos, continuam nascendo e existindo, muitos, infelizmente desconectados do poder que é a sua identidade de gênero e sem seu lugar no mundo para expressar-se e ser aceito como é. Pessoas com essas características são boas comunicadoras, boas intermediárias entre um extremo e outro, cativadoras da paz, mediadoras em vários planos, desde o material até o espiritual. São artistas e curadores da vida em toda sua plenitude e expressam-se de todos os modos.

Outrora já foram sagrados e buscam agora seu lugar novamente no mundo. A fluidez de gênero dessa natureza é parte da vida e o respeito é necessário. São homem e mulher ao mesmo tempo, por inteiro, e não fragmentados, são, até, além disso ou mais do que isso: São os “dois-espíritos”. Duas almas, um só corpo, um só coração. São universos inteiros dentro de um ser.

E temos ainda muito a contar…

Gratidão.
Menkaiká

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